Patrimoniar #18. Marcos Venancio Lui — Os cortiços e seus operadores

Patrimoniar #18. Marcos Venancio Lui — Os cortiços e seus

A forma de habitação urbana conhecida como “cortiço” se verifica em nossas cidades desde pelo menos meados do século 19. Trata-se da coabitação de um mesmo imóvel residencial por meio de aluguel de cômodos individuais: famílias e indivíduos de origens variadas compartilham das mesmas estruturas, instalações sanitárias e áreas comuns. Essa tipologia de habitação normalmente está associada a formas intensas de exploração de seus moradores (em função do alto valor cobrado por uma quantidade pequena de metros quadrados) e a condições precárias de vida privada cotidiana. A existência de cortiços, no entanto, se revela em muitos casos a única alternativa para populações de baixa renda se instalarem em áreas centrais ou bairros com fácil acesso ao emprego e à infraestrutura e equipamentos urbanos. Repletos de contradições e desafios, os cortiços permanecem um desafio para planejadores urbanos e para o enfrentamento de desigualdades e implementação de cidades justas e com dignidade para todas as pessoas. Cortiços são ainda temas recorrentes nos debates em torno do patrimônio cultural urbano, especialmente em áreas centrais, seja pela sua presença em regiões com forte concentração populacional nas quais se verificam manifestações culturais diversas, seja porque muitas vezes ocupam edificações tombadas ou com potencial de patrimonialização.

Neste programa conversamos com Marcos Venancio Lui sobre a história dos cortiços, os problemas associados a eles e a sua interlocução com questões ligadas ao patrimônio cultural. Conversamos em particular sobre sua pesquisa de doutorado atualmente em desenvolvimento em torno dos chamados operadores dos cortiços — agentes que atuam em seus bastidores e são responsáveis pela sua operação e viabilização, sejam eles proprietários, intermediários, entre outros personagens. Ao longo da conversa se revela uma realidade bastante diversa e nada homogênea, com diferentes perfis de moradores e de operadores.

OUÇA AQUI
Continue reading “Patrimoniar #18. Marcos Venancio Lui — Os cortiços e seus operadores”

Patrimoniar #17. Poroiwak: Memória e patrimônio cultural da amarelitude

Patrimoniar #17. Poroiwak: Memória e patrimônio cultural da amarelitude

Em várias cidades do mundo ocidental verifica-se desde meados do século 20 a instalação de bairros cenográficos alusivos a determinadas culturas asiáticas (especialmente as nipônicas, chinesas, coreanas, entre outras). Conhecidos como “Chinatowns”, tais bairros materializam na paisagem urbana um conjunto problemático de signos oriundos de contextos distintos, colaborando para a consolidação de estereótipos das populações consideradas “amarelas” por parte das culturas ocidentais. Trata-se de uma forma particularmente perversa de racismo, na medida em que tais paisagens estereotipadas contribuem com formas fetichização e diminuição do outro ao mesmo tempo em que parecem, paradoxalmente, valorizar sua presença. A cidade de São Paulo tem no bairro da Liberdade um desses casos: a construção de um bairro turístico repleto de signos alusivos à presença nipônica no bairro (como pórticos e luminárias estilizadas) está associada não só a esta forma de racismo urbano como colabora também com o apagamento da memória e do patrimônio cultural de outros grupos sociais igualmente invisibilizados no espaço urbano, como as populações negras e indígenas que também ocuparam aquele território.

Continue reading “Patrimoniar #17. Poroiwak: Memória e patrimônio cultural da amarelitude”

Patrimoniar #16. Wellinton Souza: Negros do Bixiga

A Constituição Federal define o patrimônio cultural como o conjunto de bens portadores de referência à memória, identidade e ação dos grupos sociais brasileiros. Identificar, reconhecer e valorizar o patrimônio passa necessariamente, portanto, pelo contato e diálogo com a memória das pessoas que detêm e vivem cotidianamente o patrimônio. Esta memória, contudo, não pode se limitar àqueles tidos como personagens notáveis ou associados aos eventos e instituições célebres: tão importante quanto esta memória (ou talvez ainda mais relevante) é aquela memória cotidiana, vivida e construída pelo dia-a-dia de pessoas anônimas.

O bairro do Bexiga — onde se concentram um terço dos bens tombados do município de São Paulo — ainda é associado por quem não compartilha de seu cotidiano a um passado quase exclusivamente ligado à herança da imigração italiana. No entanto, trata-se de um bairro complexo, marcado pela presença de grupos das mais variadas origens. Trata-se, inclusive, de um importante território negro da cidade de São Paulo.

O Coletivo Negros do Bixiga vem pautando a memória negra do bairro, promovendo entrevistas sistemáticas com moradores e ex-moradores do bairro ligados à memória negra. Desse trabalho resultou o documentário Negros do Bixiga, cujo lançamento lotou o Teatro Sérgio Cardoso em junho de 2024.

Para falar sobre essas memórias cotidianas e anônimas fundamentais para a formação da memória coletiva, conversamos nesta edição do Patrimoniar com Wellinton Souza, membro e um dos fundadores do Coletivo.

OUÇA AQUI
Continue reading “Patrimoniar #16. Wellinton Souza: Negros do Bixiga”

Patrimoniar #15. Felipe Hoffman: museus de democracia e justiça de transição

Patrimoniar #15. Felipe Hoffman: museus de democracia e justiça de transição

Iniciativas de memorialização e musealização de lugares, registros, referências e testemunhos de dinâmicas de repressão e de resistência associadas a regimes de exceção são alguns dos resultados recorrentes dos chamados processos de justiça de transição. Tais processos pautam a busca pela memória, verdade, justiça e reparação de graves violações de direitos humanos ocorridas em episódios autoritários e traumáticos da história recente de distintos povos e nações. São célebres os processos de justiça de transição ocorridos após eventos violentos e traumáticos, como o Holocausto na Alemanha, o Apartheid na África do Sul e as ditaduras civil-militares que tiveram lugar, por exemplo, em vários dos países latino-americanos ao longo do século 20.

Continue reading “Patrimoniar #15. Felipe Hoffman: museus de democracia e justiça de transição”

Patrimoniar #14. Jerá Guarani: Terra indígena Tenondé Porã

Patrimoniar #14. Jerá Guarani: Terra indígena Tenondé Porã

O território ocupado atualmente pelos municípios da Região Metropolitana de São Paulo apresenta registros de ocupação muito anteriores à presença dos colonizadores europeus. Para além do mito conciliatório relacionado à fundação da vila de São Paulo, pelo qual teria havido mútua colaboração entre povos indígenas e jesuítas, trata-se de um processo tenso marcado por violências e agressões aos povos originários. Apesar de tudo, ainda se verifica a presença e resistência desses povos em duas terras indígenas oficialmente demarcadas, uma na região noroeste e outra na região sul da capital. Esta última — a Terra Indígena Tenondé Porã — é assunto desta edição do Patrimoniar, na qual conversamos com Jerá Guarani, educadora e ativista indígena do povo guarani mbyá.

Continue reading “Patrimoniar #14. Jerá Guarani: Terra indígena Tenondé Porã”

Patrimoniar #13. Lilian Miranda Bezerra e José Hermes Martins Pereira: O mundo dos arquivos

Patrimoniar #13. Lilian Miranda Bezerra e José Hermes Martins Pereira: O mundo dos arquivos

O mundo dos acervos costuma ser dividido em três esferas: o dos acervos bibliográficos, o dos acervos museológicos e os acervos arquivísticos. Entre bibliotecas, museus e arquivos, estes últimos costumam soar aos não iniciados como entidades um tanto herméticas ou insossas: meros repositórios de documentos velhos sem maiores atrativos. Arquivos, contudo, são fundamentais para articular a memória de coletivos e instituições e preservar o conjunto de documentos produzidos ao longo de suas atividades e trajetórias.

Para discutir o mundo dos arquivos — e em particular o universo dos arquivos na Universidade de São Paulo — conversamos nesta edição do Patrimoniar com Lilian Miranda Bezerra e com José Hermes Martins Pereira, historiadores e profissionais atuantes no Arquivo Geral da USP. Ao longo da conversa discutimos o que caracteriza um arquivo, o que um arquivo deve e o que não deve ser, o caráter dos documentos presentes nos arquivos e como lidar com eles, bem como os desafios para sua preservação.

Continue reading “Patrimoniar #13. Lilian Miranda Bezerra e José Hermes Martins Pereira: O mundo dos arquivos”

Patrimoniar #12. Mestre Rabi Batukeiro e o Bloco ÉdiSanto

Assistimos em tempos recentes à ação de uma série de coletivos culturais atuantes nas periferias urbanas que trabalham dimensões de ancestralidade, identidade e memória, articulando questões raça, gênero e classe e promovendo a salvaguarda de expressões culturais de grupos sistematicamente silenciados. Tratam-se de indivíduos e grupos atuantes na promoção e transmissão dessas manifestações culturais para futuras gerações, muitas vezes sem o devido reconhecimento ou apoio por parte das instâncias oficiais de patrimônio e cultura.

Um caso particular é o do Bloco Afro ÉdiSanto, que atua na região de M´Boi Mirim desde 2010. Surgido como projeto de música percussionista com o objetivo de mesclar ritmos ligados ao culto aos orixás com expressões musicais contemporâneas, o bloco pauta questões ligadas às culturas de matriz africana, às ancestralidades e à vida na periferia de São Paulo. Desde sua fundação o bloco se expandiu, abarcando hoje também questões de gênero, por exemplo, com o projeto Macumbarias Femininas, e saindo todos os anos para desfilar pela região de M´Boi Mirim durante o carnaval. O trabalho do bloco é contínuo, participando ainda da articulação de redes nacionais voltadas à ancestralidade e à cultura e música afro.

Continue reading “Patrimoniar #12. Mestre Rabi Batukeiro e o Bloco ÉdiSanto”

Patrimoniar #11. Adriana Capretz: Memória, silenciamento e crime ambiental em Maceió

Patrimoniar #11. Adriana Capretz: Memória, silenciamento e crime ambiental em Maceió

A cidade de Maceió, em Alagoas, tem vivido nos últimos anos os efeitos violentos e assustadores decorrentes da mineração predatória em seu território. A extração sistemática de sal-gema por parte da empresa Braskem ao longo de décadas em camadas profundas do solo provocou abalo das camadas superficiais, inviabilizando a vida em bairros inteiros e levando à condenação de construções e estruturas diversas presentes nestes locais. A necessidade de evacuar tal região levou a uma diáspora forçada de parcelas significativas da população de Maceió, redundando na perda de laços de sociabilidade, de vínculos afetivos, de práticas culturais e de manifestações e referências culturais enraizadas neste território. Para além das perdas materiais, trata-se de um violento processo de apagamento de memórias, vivências e práticas culturais cotidianas. Em reação ao duro golpe promovido na vida de milhares de pessoas, repentinamente obrigadas a deixar suas casas e seus cotidianos, diversas iniciativas de memória e de denúncia do crime ambiental vêm sendo promovidas por coletivos e indivíduos diversos.

Para discutir estas questões, nesta edição do Patrimoniar em dezembro de 2023 conversamos com a pesquisadora Adriana Capretz Borges da Silva Manhas, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Ao longo do programa retomamos o histórico do desastre ambiental promovido na cidade, seus efeitos materiais e os processos de silenciamento e apagamento de referências culturais e de memória existentes naquela região.

OUÇA AQUI

Continue reading “Patrimoniar #11. Adriana Capretz: Memória, silenciamento e crime ambiental em Maceió”

Patrimoniar #10. Abílio Ferreira: a Capela dos Aflitos, a Liberdade e a memória negra em São Paulo

Patrimoniar #09. Abílio Ferreira: a Capela dos Aflitos, a Liberdade e a memória negra em São Paulo

Em cidades como São Paulo são muitos os casos de espaços que passaram por transformações expressivas ao longo do processo de desenvolvimento urbano. Antigas praças e largos desaparecem, edifícios são demolidos e substituídos por outros e marcos da paisagem se transformam em referências perdidas na memória quem ali viveu. Muitos desses casos de demolição e reconstrução de espaços e lugares estão associados a processos de apagamento e silenciamento das referências culturais e urbanas de grupos sociais minoritários ou tidos como indesejáveis. Apesar destes apagamentos, certos sinais permanecem silenciosos no tecido urbano.

Nesta edição do Patrimoniar conversamos com Abílio Ferreira — jornalista, escritor, pesquisador e ativista do movimento negro — a respeito desses processos de silenciamento, dos sinais que permanecem e de como é possível lidar com o espaço urbano na perspectiva de um jogo em busca destes sinais — um jogo que articula resistência e apropriação da cidade. Conversamos especialmente sobre acontecimentos recentes ligados à memória e ao patrimônio cultural no bairro da Liberdade e sobre o caso da Capela dos Aflitos, localizada nesta região.

Continue reading “Patrimoniar #10. Abílio Ferreira: a Capela dos Aflitos, a Liberdade e a memória negra em São Paulo”

Patrimoniar #09. Fernanda Vargas: o Bexiga nordestino

Patrimoniar #09. Fernanda Vargas: o Bexiga nordestino

Embora o bairro do Bexiga seja tradicionalmente apontado como uma região multicultural e plural, a associação entre a região e sua memória italiana costuma se destacar em relação às suas demais representações. Embora trate-se de fato de um importante território da imigração italiana em São Paulo, o Bexiga está longe de se caracterizar apenas como um “bairro italiano”: foi nesta região, lembremos, que se desenvolveu um importante quilombo urbano em São Paulo, tornando-a também importante território negro da cidade.

Outros grupos, contudo, também ocupam o bairro, desenvolvem nele suas manifestações culturais e lhe dão vida — ainda que suas presenças sejam alvo de processos de apagamento ou marginalização por parte das demais representações do bairro. Nesta edição do Patrimoninar nós conversamos com Fernanda Vargas a respeito do Bexiga nordestino. Fernanda é cineasta e gestora cultural e é autora de dissertação de mestrado sobre a presença nordestina no Bexiga e co-diretora, junto de Daniel Fagundes, do documentário Oxente, Bixiga!, a respeito do mesmo tema.

Continue reading “Patrimoniar #09. Fernanda Vargas: o Bexiga nordestino”