
A forma de habitação urbana conhecida como “cortiço” se verifica em nossas cidades desde pelo menos meados do século 19. Trata-se da coabitação de um mesmo imóvel residencial por meio de aluguel de cômodos individuais: famílias e indivíduos de origens variadas compartilham das mesmas estruturas, instalações sanitárias e áreas comuns. Essa tipologia de habitação normalmente está associada a formas intensas de exploração de seus moradores (em função do alto valor cobrado por uma quantidade pequena de metros quadrados) e a condições precárias de vida privada cotidiana. A existência de cortiços, no entanto, se revela em muitos casos a única alternativa para populações de baixa renda se instalarem em áreas centrais ou bairros com fácil acesso ao emprego e à infraestrutura e equipamentos urbanos. Repletos de contradições e desafios, os cortiços permanecem um desafio para planejadores urbanos e para o enfrentamento de desigualdades e implementação de cidades justas e com dignidade para todas as pessoas. Cortiços são ainda temas recorrentes nos debates em torno do patrimônio cultural urbano, especialmente em áreas centrais, seja pela sua presença em regiões com forte concentração populacional nas quais se verificam manifestações culturais diversas, seja porque muitas vezes ocupam edificações tombadas ou com potencial de patrimonialização.
Neste programa conversamos com Marcos Venancio Lui sobre a história dos cortiços, os problemas associados a eles e a sua interlocução com questões ligadas ao patrimônio cultural. Conversamos em particular sobre sua pesquisa de doutorado atualmente em desenvolvimento em torno dos chamados operadores dos cortiços — agentes que atuam em seus bastidores e são responsáveis pela sua operação e viabilização, sejam eles proprietários, intermediários, entre outros personagens. Ao longo da conversa se revela uma realidade bastante diversa e nada homogênea, com diferentes perfis de moradores e de operadores.









