Patrimoniar #15. Felipe Hoffman: museus de democracia e justiça de transição

Patrimoniar #15. Felipe Hoffman: museus de democracia e justiça de transição

Iniciativas de memorialização e musealização de lugares, registros, referências e testemunhos de dinâmicas de repressão e de resistência associadas a regimes de exceção são alguns dos resultados recorrentes dos chamados processos de justiça de transição. Tais processos pautam a busca pela memória, verdade, justiça e reparação de graves violações de direitos humanos ocorridas em episódios autoritários e traumáticos da história recente de distintos povos e nações. São célebres os processos de justiça de transição ocorridos após eventos violentos e traumáticos, como o Holocausto na Alemanha, o Apartheid na África do Sul e as ditaduras civil-militares que tiveram lugar, por exemplo, em vários dos países latino-americanos ao longo do século 20.

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Patrimoniar #14. Jerá Guarani: Terra indígena Tenondé Porã

Patrimoniar #14. Jerá Guarani: Terra indígena Tenondé Porã

O território ocupado atualmente pelos municípios da Região Metropolitana de São Paulo apresenta registros de ocupação muito anteriores à presença dos colonizadores europeus. Para além do mito conciliatório relacionado à fundação da vila de São Paulo, pelo qual teria havido mútua colaboração entre povos indígenas e jesuítas, trata-se de um processo tenso marcado por violências e agressões aos povos originários. Apesar de tudo, ainda se verifica a presença e resistência desses povos em duas terras indígenas oficialmente demarcadas, uma na região noroeste e outra na região sul da capital. Esta última — a Terra Indígena Tenondé Porã — é assunto desta edição do Patrimoniar, na qual conversamos com Jerá Guarani, educadora e ativista indígena do povo guarani mbyá.

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Patrimoniar #13. Lilian Miranda Bezerra e José Hermes Martins Pereira: O mundo dos arquivos

Patrimoniar #13. Lilian Miranda Bezerra e José Hermes Martins Pereira: O mundo dos arquivos

O mundo dos acervos costuma ser dividido em três esferas: o dos acervos bibliográficos, o dos acervos museológicos e os acervos arquivísticos. Entre bibliotecas, museus e arquivos, estes últimos costumam soar aos não iniciados como entidades um tanto herméticas ou insossas: meros repositórios de documentos velhos sem maiores atrativos. Arquivos, contudo, são fundamentais para articular a memória de coletivos e instituições e preservar o conjunto de documentos produzidos ao longo de suas atividades e trajetórias.

Para discutir o mundo dos arquivos — e em particular o universo dos arquivos na Universidade de São Paulo — conversamos nesta edição do Patrimoniar com Lilian Miranda Bezerra e com José Hermes Martins Pereira, historiadores e profissionais atuantes no Arquivo Geral da USP. Ao longo da conversa discutimos o que caracteriza um arquivo, o que um arquivo deve e o que não deve ser, o caráter dos documentos presentes nos arquivos e como lidar com eles, bem como os desafios para sua preservação.

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Patrimoniar #12. Mestre Rabi Batukeiro e o Bloco ÉdiSanto

Assistimos em tempos recentes à ação de uma série de coletivos culturais atuantes nas periferias urbanas que trabalham dimensões de ancestralidade, identidade e memória, articulando questões raça, gênero e classe e promovendo a salvaguarda de expressões culturais de grupos sistematicamente silenciados. Tratam-se de indivíduos e grupos atuantes na promoção e transmissão dessas manifestações culturais para futuras gerações, muitas vezes sem o devido reconhecimento ou apoio por parte das instâncias oficiais de patrimônio e cultura.

Um caso particular é o do Bloco Afro ÉdiSanto, que atua na região de M´Boi Mirim desde 2010. Surgido como projeto de música percussionista com o objetivo de mesclar ritmos ligados ao culto aos orixás com expressões musicais contemporâneas, o bloco pauta questões ligadas às culturas de matriz africana, às ancestralidades e à vida na periferia de São Paulo. Desde sua fundação o bloco se expandiu, abarcando hoje também questões de gênero, por exemplo, com o projeto Macumbarias Femininas, e saindo todos os anos para desfilar pela região de M´Boi Mirim durante o carnaval. O trabalho do bloco é contínuo, participando ainda da articulação de redes nacionais voltadas à ancestralidade e à cultura e música afro.

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Patrimoniar #11. Adriana Capretz: Memória, silenciamento e crime ambiental em Maceió

Patrimoniar #11. Adriana Capretz: Memória, silenciamento e crime ambiental em Maceió

A cidade de Maceió, em Alagoas, tem vivido nos últimos anos os efeitos violentos e assustadores decorrentes da mineração predatória em seu território. A extração sistemática de sal-gema por parte da empresa Braskem ao longo de décadas em camadas profundas do solo provocou abalo das camadas superficiais, inviabilizando a vida em bairros inteiros e levando à condenação de construções e estruturas diversas presentes nestes locais. A necessidade de evacuar tal região levou a uma diáspora forçada de parcelas significativas da população de Maceió, redundando na perda de laços de sociabilidade, de vínculos afetivos, de práticas culturais e de manifestações e referências culturais enraizadas neste território. Para além das perdas materiais, trata-se de um violento processo de apagamento de memórias, vivências e práticas culturais cotidianas. Em reação ao duro golpe promovido na vida de milhares de pessoas, repentinamente obrigadas a deixar suas casas e seus cotidianos, diversas iniciativas de memória e de denúncia do crime ambiental vêm sendo promovidas por coletivos e indivíduos diversos.

Para discutir estas questões, nesta edição do Patrimoniar em dezembro de 2023 conversamos com a pesquisadora Adriana Capretz Borges da Silva Manhas, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Ao longo do programa retomamos o histórico do desastre ambiental promovido na cidade, seus efeitos materiais e os processos de silenciamento e apagamento de referências culturais e de memória existentes naquela região.

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Patrimoniar #10. Abílio Ferreira: a Capela dos Aflitos, a Liberdade e a memória negra em São Paulo

Patrimoniar #09. Abílio Ferreira: a Capela dos Aflitos, a Liberdade e a memória negra em São Paulo

Em cidades como São Paulo são muitos os casos de espaços que passaram por transformações expressivas ao longo do processo de desenvolvimento urbano. Antigas praças e largos desaparecem, edifícios são demolidos e substituídos por outros e marcos da paisagem se transformam em referências perdidas na memória quem ali viveu. Muitos desses casos de demolição e reconstrução de espaços e lugares estão associados a processos de apagamento e silenciamento das referências culturais e urbanas de grupos sociais minoritários ou tidos como indesejáveis. Apesar destes apagamentos, certos sinais permanecem silenciosos no tecido urbano.

Nesta edição do Patrimoniar conversamos com Abílio Ferreira — jornalista, escritor, pesquisador e ativista do movimento negro — a respeito desses processos de silenciamento, dos sinais que permanecem e de como é possível lidar com o espaço urbano na perspectiva de um jogo em busca destes sinais — um jogo que articula resistência e apropriação da cidade. Conversamos especialmente sobre acontecimentos recentes ligados à memória e ao patrimônio cultural no bairro da Liberdade e sobre o caso da Capela dos Aflitos, localizada nesta região.

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Patrimoniar #09. Fernanda Vargas: o Bexiga nordestino

Patrimoniar #09. Fernanda Vargas: o Bexiga nordestino

Embora o bairro do Bexiga seja tradicionalmente apontado como uma região multicultural e plural, a associação entre a região e sua memória italiana costuma se destacar em relação às suas demais representações. Embora trate-se de fato de um importante território da imigração italiana em São Paulo, o Bexiga está longe de se caracterizar apenas como um “bairro italiano”: foi nesta região, lembremos, que se desenvolveu um importante quilombo urbano em São Paulo, tornando-a também importante território negro da cidade.

Outros grupos, contudo, também ocupam o bairro, desenvolvem nele suas manifestações culturais e lhe dão vida — ainda que suas presenças sejam alvo de processos de apagamento ou marginalização por parte das demais representações do bairro. Nesta edição do Patrimoninar nós conversamos com Fernanda Vargas a respeito do Bexiga nordestino. Fernanda é cineasta e gestora cultural e é autora de dissertação de mestrado sobre a presença nordestina no Bexiga e co-diretora, junto de Daniel Fagundes, do documentário Oxente, Bixiga!, a respeito do mesmo tema.

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Patrimoniar #08. Claudionor Brandão, Magno de Carvalho e Neli Wada: memória do Sindicato dos Trabalhadores da USP

Patrimoniar #08. Claudionor Brandão, Magno de Carvalho e Neli Wada: memória do Sindicato dos Trabalhadores da USP

Segundo a Carta Patrimonial da USP, o patrimônio cultural universitário é formado por bens portadores de referência à memória, identidade e ação dos vários grupos sociais formadores da Universidade. Entender esse patrimônio envolve, portanto, reconhecer as várias referências culturais relevantes para todos os membros da comunidade universitária: estudantes, servidores docentes e servidores técnico-administrativos. Parte da memória dos docentes e, em alguma medida, a dos estudantes, contudo, já estão razoavelmente bem representadas em monumentos, topônimos, publicações e outras iniciativas de memorialização: temos espalhadas pela universidade inúmeras salas, auditórios, edifícios e laboratórios nomeados a partir de célebres e saudosos ex-docentes e ex-alunos da universidade, assim como monumentos como aquele dedicado ao professor Ramos de Azevedo em frente à Escola Politécnica. No entanto, uma parte importante da vida universitária ainda permanece pouco representada nas narrativas, na memória e no patrimônio universitário — aquela referente aos técnicos-administrativos, personagens que normalmente atuam nos bastidores da universidade responsáveis por fazer suas engrenagens funcionarem adequadamente.

Neste programa o CPC tem o prazer de ouvir o depoimento de três lideranças históricas do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp): Claudionor Brandão, Magno de Carvalho e Neli Wada. Estes depoimentos falam sobre o trabalho e a militância no dia-a-dia da universidade, a memória das primeiras manifestações sindicais — ainda fortemente reprimidas pela Ditadura Militar —, a trajetória de lutas, disputas e conquistas e a maneira como toda essa memória está presente no dia-a-dia da universidade.

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Patrimoniar #07. Andréa Tourinho. Patrimônio, planejamento e planos diretores

Sobre um fundo amarelo constam as seguintes informações:

Patrimoniar #07. Andréa Tourinho. Patrimônio, planejamento e planos diretores

A definição e implementação de políticas públicas constitui uma das dimensões mais importantes do campo do patrimônio cultural: é por meio delas que instrumentos de identificação, preservação e valorização dos bens culturais manifestam-se publicamente e ganham alcance social, sobretudo no ambiente urbano. Neste sentido, é pauta recorrente na trajetória de debates e estudos sobre as políticas públicas de patrimônio a da integração deste campo com o do planejamento urbano. Com efeito, desde meados dos anos 1960 que esta pauta aparece e reaparece nas discussões patrimoniais. São várias as questões ligadas a este debate: em que medida o patrimônio cultural deve aparecer nos planos diretores das cidades? Quais os limites e as potencialidades dos instrumentos urbanísticos na salvaguarda do patrimônio? O progresso da cidade é um entrave à preservação do patrimônio e vice-versa?

Neste momento a cidade de São Paulo discute a revisão de seu Plano Diretor Estratégico. Esta proposta de revisão, contudo, tem sido criticada por diversos pesquisadores, profissionais, ativistas e militantes ligados à academia e aos movimentos sociais em função de ameaças às referências culturais e às marcas da memória social presentes em um território que pode sofrer alterações materiais profundas. Para discutir estes e outros assuntos afins conversamos nesta edição do Patrimoniar com a arquiteta urbanista e professora Andréa Tourinho, pesquisadora e profissional com ampla experiência na interface entre patrimônio cultural e planejamento urbano.

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Patrimoniar #06. Museus e acervos na universidade

Sobre um fundo amarelo, constam as inscrições:

Patrimoniar #06. Museus e acervos na universidade

Carla Gibertoni Carneiro, Cibele Monteiro da Silva, Flávia Andréa Machado Urzua e Mauricio Candido da Silva.

Há um ditado que corre o mundo dos museus e acervos: “Todas as grandes universidades possuem grandes museus.”

De fato, são inúmeros os casos de universidades de renome internacional que abrigam redes relevantes de museus e outras coleções acadêmicas. A Universidade de São Paulo não foge à regra: além de reunir quatro grandes museus inscritos em seu estatuto ― Museu Paulista (MP), Museu de Zoologia (MZ), Museu de Arqueologia e Etnologia e Museu (MAE) e Museu de Arte Contemporânea (MAC) ― há inúmeros outros pequenos museus ligados às unidades universitárias bem como coleções ligadas a departamentos, laboratórios e outras estruturas de ensino, pesquisa e extensão universitária. De fato, esse rico conjunto de coleções atravessa a história da universidade, constituindo-se de um gigantesco e fascinante rol de documentos, artefatos, obras de arte e outros objetos das mais variadas naturezas e suportes.

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