100 anos de Yayá no Bixiga: A odisseia de uma milionária no jornal de O Parafuso

100 anos de Yayá no Bixiga: Jornal O Parafuso

Em 1919, depois de apresentar mais uma crise nervosa, Yayá foi internada no Hospital Instituto Paulista, onde ficou mais de um ano. O jornal da época — O Parafuso — acompanhou o caso e produziu diversas matérias de cunho sensacionalista, à semelhança de uma novela de folhetim em que contava a história da internação de Yayá como “a odisseia de uma rica milionária” vítima de uma trama em que estariam envolvidos seu tutor, curadores, médicos, parentes próximos e a família de sua madrinha.

As publicações tiveram repercussões decisivas sobre o tratamento médico de Yayá. De um lado, a publicação de um dos relatórios sobre o seu estado de saúde mental resultou na exoneração de um de seus médicos. Por outro lado, a pressão feita pelo jornal levou a transferência de Yayá para uma casa alugada no Bexiga, na qual ela receberia tratamento médico especial. A decisão foi comemorada como uma vitória pelo jornal O Parafuso. Mas o jornal não parou por aí. Em uma reportagem de título “martírio de uma órfã milionária”, o jornal divulgou o telefone da casa do Bexiga, o que levou a necessidade de desligamento da conta.

O Parafuso circulou semanalmente entre 1915 e 1921, com exceção da segunda metade de 1916 quando seu editor Benedito de Andrade, o Baby, se exilou para evitar sua prisão. Em 1922, as publicações foram rareando, depois do suicídio de Baby. Controverso, o jornal é tido como “sensacionalista”, “chantagista”, “sórdido planfeto”, principalmente pela elite literária, enquanto integra a lista de periódicos que denunciavam os problemas dos bairros periféricos contra a imagem de uma São Paulo moderna e a oligarquia política que acusavam de cuidar unicamente de seus próprios interesses, escalando posições públicas “às custas do dinheiro do Tesouro, que é o dinheiro extorquido do povo”. No primeiro número, em “Razão de Ser”, essa disposição é apresentada: “parafusar-lhes na cara, com parafusos de fogo e de verdade, a máscara verdadeira que eles devem trazer”. Sua trajetória pode ser resumida pela forma como se definia: “Semanário Crítico e Ilustrado” (1915–1917), “Semanário de Combate” (em apoio à Greve Geral de 1917), “A Rolha — semanário em substituição a O Parafuso, enquanto durar o estado de sítio” (final de 1917 e todo 1918) e “Semanário independente — enquanto durar.”

100 anos de Yayá no Bixiga

Sebastiana de Mello Freire, a Dona Yayá, foi morar na casa da Rua Major Diogo, em início de agosto de 1920, por recomendação médica e permaneceu vivendo ali por 41 anos, até a sua morte em 1961. Para lembrar os 100 anos da chegada de Yayá ao Bexiga, o setor educativo do Centro de Preservação Cultural (CPC–USP) preparou uma série de textos que abordam esse momento da vida de Yayá e o contexto histórico de São Paulo e do país. Acompanhe!