100 anos de Yayá no Bixiga: as transformações da moda

De família abastada, Yayá se vestia de acordo com sua classe social, porém de modo simples, preferia cores escuras, colares discretos, sem muito adereço, embora estudos de moda identificarem o fim do séc. XIX e início do séc. XX como sendo época de ostentação e extravagância, como relatam Caleiro e Gusmão (2012). Há registro de um vestido que Yayá mandou confeccionar na “La Saison”, comércio de Henrique Bamberg na Rua São Bento, n° 51, endereço este que fazia parte do famoso triângulo paulista formado também pelas ruas XV de Novembro e Direita, onde as principais lojas estavam localizadas. Contudo, Yayá também mandou confeccionar vestidos em uma profissional situada na Rua 7 de Abril, n° 10, na própria rua onde morava. (RODRIGUES, 2017; p.81,82).

De acordo com Barbuy (2009, p. 201) “La Saison” é um exemplo de comércio de nome francês, propriedade de um germânico, que vende moda parisiense. A França exerceu grande influência no Brasil, principalmente devido à existência da Missão Artística Francesa implementada por Dom João VI, preocupado com o desenvolvimento cultural do país. A partir dessa influência, os brasileiros trouxeram para o seu cotidiano, na arquitetura, nos modos de comer, se comportar, pentear, vestir e falar, o estilo europeu. No comércio de São Paulo, muitos estabelecimentos pertenciam a estrangeiros luso-brasileiros ou germânicos, mas que colocavam nomes franceses em seus comércios, devido ao prestígio da moda e costumes franceses no país. (MENDES, 2015).

A Belle Époque, período que durou do fim do século XIX até a eclosão da 1ª Guerra Mundial, é considerado uma bela época. Foi o momento em que o mundo acompanhou o surgimento de muitas inovações tecnológicas, científicas e, consequentemente, de comportamento. O desenvolvimento das comunicações, da eletricidade, dos transportes, a efervescência nas artes, o surgimento do cinema, a Revolução Industrial, além de um significativo desenvolvimento científico, com novos olhares sobre o corpo humano possibilitado pela descoberta da vacinação de Pasteur, a Teoria da Evolução de Darwin, a hereditariedade de Mendel, ocasionaram um aumento de vida nas cidades e novos modos de ver a vida e vive-la. (CALEIRO; GUSMÃO; 2012)

Novos hábitos para as mulheres foram a prática de esportes e lazer como a equitação, o golf e andar de bicicleta por exemplo, além de tomar banho de mar, que antes era apenas utilizado por doentes. Esses costumes motivaram a criação de novos trajes, mais apropriados à prática das atividades, sendo eles o tailleur, inspirado no terno masculino, e o maiô. Durante a Belle Époque, a armação das saias diminuiu, as saias eram em formato de sino e bem justas ao corpo. Para o traje de dia o decote era fechado até o pescoço e as mangas eram compridas, já para a noite o vestido era decotado, permitindo mostrar os ombros. Usava-se o espartilho bem apertado e muitos enfeites nos trajes, que ressaltava a ostentação e o bem viver. (MENDES, 2015)

Com a 1ª Guerra Mundial, mulheres de diferentes classes sociais precisaram assumir trabalhos até então praticados pelos homens e para isso necessitavam de trajes mais práticos e soltos. Foi o fim do uso do espartilho, o vestido encurtou até a canela e nos anos 20 até o joelho, quando a mulher também passou a usar uma faixa de tecido para segurar os seios. A aparência feminina era agora era composta por vestidos curtos e retos, cintura baixa e cabelos curtos, revelando uma captura das linhas do vestuário masculino e aproximando as pessoas pela tendência do vestuário. Essas mudanças possibilitam e são o início da liberdade para a mulher que agora, além incorporar o trabalho à sua rotina, também fuma em público, dança e dirige.

100 anos de Yayá no Bixiga

Sebastiana de Mello Freire, a Dona Yayá, foi morar na casa da Rua Major Diogo, em início de agosto de 1920, por recomendação médica e permaneceu vivendo ali por 41 anos, até a sua morte em 1961. Para lembrar os 100 anos da chegada de Yayá ao Bexiga, o setor educativo do Centro de Preservação Cultural (CPC–USP) preparou uma série de textos que abordam esse momento da vida de Yayá e o contexto histórico de São Paulo e do país. Acompanhe!