100 anos de Yayá no Bixiga: A gripe espanhola

Gripe espanhola

Sebastiana de Mello Freire, a Dona Yayá, passou mais de um ano internada em instituições psiquiátricas após receber o diagnóstico de transtorno mental, em 1918. Em 1920, Yayá foi transferida para a casa no Bixiga, pois sua fortuna permitia que ela recebesse um tratamento especial, com vigilância cuidadosa e constante, em melhores condições. Segundo relato médico, as manifestações do desequilíbrio emocional de Yayá poderiam estar relacionadas a complicações da gripe espanhola, que àquela época se alastrava pelos Estados Unidos e Europa. A epidemia chegou ao Brasil em setembro de 1918, provavelmente disseminada pela passagem de um navio vindo da Inglaterra por Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

Yayá foi um dos 116.777 casos de gripe espanhola notificados na cidade de São Paulo. No Brasil a doença causou 35 mil mortes. No mundo todo, morreram entre 20 e 50 milhões de pessoas – três vezes mais do que os mortos na Primeira Guerra, em um espaço de tempo assustadoramente menor. Como o microscópio eletrônico que permitiria ver o vírus só seria inventado em 1932, e ainda não existiam os antibióticos, muitas foram as mortes por pneumonia causada por bactérias oportunistas. O sequenciamento dos genes do vírus só foi feito em 2005 a partir de amostras de tecidos de vítimas da doença, e a conclusão é que se trata de um vírus influenza A (H1N1). Os esforços do governo para o combate à epidemia levaram à criação, em 1920, da Diretoria Nacional da Saúde, transformada em Ministério da Saúde em 1930.

As fotos do jornal Correio Paulista mostram o esvaziamento do centro da cidade, a transformação de clube e escolas, como o Colégio Nossa Senhora de Sion, em hospitais improvisados e o transporte de caixões das vítimas da gripe espanhola.

Para saber mais

  • A origem da gripe epidêmica é ainda hoje discutida. Embora as primeiras epidemias tenham surgido dentro e próximo de campos militares americanos em março de 1918, recebeu o nome de espanhola porque a Espanha não se envolveu na Primeira Guerra Mundial e, sem censura, seus jornais divulgaram os reais números de casos e de mortes, permitindo que fossem associados ao país os primeiros focos da epidemia. Na Europa e Estados Unidos, começou a circular em março de 1918 e uma segunda onda em agosto do mesmo ano foi devastadora. Uma terceira onda, no início de 1919, foi associada ao retorno dos combatentes da Primeira Guerra Mundial após o fim do conflito. Com uma taxa de mortalidade entre 2,5 e 5%, atingiu principalmente adultos entre 20 e 35 anos de idade e desafiou as terapêuticas conhecidas e disponíveis na época. Não se sabia que a doença era virótica (o microscópio eletrônico que permitiria ver o vírus só seria inventado em 1932) e, como os antibióticos também estavam ainda para serem descobertos, muitas foram as mortes por pneumonia causada por bactérias oportunistas.
  • Segundo historiadores, a epidemia chegou ao Brasil em setembro de 1918, coincidindo os registros de casos na imprensa com a passagem do navio britânico Demerara, que partiu de Liverpool e fez escalas em Lisboa, Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Rapidamente se se espalhou pelo país. Encontrou corpos debilitados pela fome agravada pela carestia decorrente da política brasileira de priorização da exportação de produtos agrícolas durante a primeira guerra mundial e por moléstias resultantes de inanição e moradias insalubres. Não havia aparelhos públicos de saúde. A assistência médica dependia das santas casas e de hospitais filantrópicos que não conseguiam atender a enorme demanda. O então presidente da república, Wenceslau Braz, convidou o médico Carlos Chagas para controlar o caos que se instalara. O infectologista abriu hospitais de campanha, fechou escolas, proibiu eventos com aglomeração de pessoas e coordenou uma campanha de prevenção utilizando os jornais (os veículos de comunicação disponíveis na época) que passaram a publicar recomendações como o distanciamento social e a higiene das mãos e garganta. Na cidade de São Paulo, o prefeito Washington Luís instalou hospitais provisórios em escolas e agências da prefeitura, determinou a instalação de telefones para a transmissão de orientações e relatos do quadro da epidemia e abriu novos cemitérios, como o da Lapa. Altino Arantes, presidente do estado denominou o ano de 1918 como sendo o ano dos quatro gês por reunir os maiores desafios que seu governo enfrentou: a gripe, a geada, a guerra e os gafanhotos. Para fazer frente a gripe, por intermédio do Secretário de Estado dos Negócios do Interior, convocou as municipalidades e os diversos setores da sociedade para a formação de comissões de socorros com a finalidade de dar assistência médica, promover internações, distribuir alimentos e aviar receitas. Todos esses esforços não evitaram o grande número de vítimas das quais a maioria foi de trabalhadores: a inexistência de leis trabalhistas que garantissem o afastamento remunerado expondo suas famílias ao risco de viver em condição de miséria e a jornada de 16 horas no chão de fábrica levaram trabalhadores gripados à morte. O presidente eleito Rodrigues Alves, também infectado pela gripe, não chegou assumir em 15 de novembro e faleceu janeiro de 1919. Discute-se se em virtude da gripe ou de leucemia por constar em seu atestado de óbito como causa da morte uma “anemia perniciosa”.
  • A comoção causada pela doença e os esforços de órgãos do governo para o seu combate levaram à criação, em 1920, da Diretoria Nacional da Saúde, embrião do que viria a se tornar , em 1930, o Ministério da Saúde. O sequenciamento dos genes do vírus foi feito em 2005 a partir de amostras de tecidos de vítimas da doença e a conclusão é que se trata de um vírus influenza A (H1N1).

Referências e acervos consultados

Acervo de O Estado de São Paulo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

DAMACENA NETO, Leandro C., A Gripe Espanhola de 1918 na Cidade de São Paulo: Notas sobre o “Cotidiano Epidêmico” na Metrópode do Café”, Histórica — Revista Eletrônica do Arquivo Público do Estado de São Paulo, 29, 2008.

El Pais. Em 1918, gripe espanhola espalhou morte e pânico e gerou a semente do SUS.

SANTOS, Ricardo Augusto dos. O Carnaval, a peste e a espanhola. História Ciencias Saúde — Manguinhos. Vol. 13, n. 1, Rio de Janeiro Jan./Mar. 2006

TAUBENBERGER, Jeffery K., REID, Ann H. e FANNING, Thomas G., À caça do vírus da gripe assassina. Scientific American Brasil, ano 3, no. 35, abril de 2005, p.66–75.