100 anos de Yayá no Bixiga: A gripe espanhola e as consequências no ensino superior

Outubro a dezembro de 1918 marcam oficialmente o período em que a epidemia da gripe espanhola assolou São Paulo e coincide com o momento das primeiras manifestações de desequilíbrio emocional de Dona Yayá. Segundo o jornal O Parafuso, que dedicou uma série de edições à defesa da liberdade da “herdeira milionária”, essas manifestações teriam sido decorrentes da infecção pela “gripe pneumônica” confirmada pelo médico que dela cuidou, em entrevista ao periódico.

O isolamento da população em suas casas, a quarentena, a restrição à circulação de pessoas em áreas públicas como praças e parques e o fechamento de escolas e faculdades para instalação de hospitais provisórios foram as medidas profiláticas adotadas tardiamente e se mostraram incapazes de debelar a epidemia gripal. Mesmo com o apoio de instituições privadas, filantrópicas e religiosas e da sociedade que passaram a dar assistência aos enfermos, São Paulo viu o número de vítimas aumentar subindo de 87 diárias no final de outubro para 300 por dia no auge da epidemia. Segundo relatório da prefeitura da capital, a média durante a epidemia foi de 178,6 mortes por dia, muito superior ao número de enterros diários no ano anterior: 27. Os 5331 mortos contabilizados oficialmente correspondem a 1% da população. Mas, há muitas dúvidas a respeito do verdadeiro número de óbitos e também de infectados que pode ter chegado a 350 mil.

Em dezembro, com o número de casos diminuindo, a preocupação se voltou para alguns dos sobreviventes: os alunos de cursos superiores que passavam pela época dos exames finais, que se salvaram ou estavam em convalescença. Rodrigues Alves, eleito para um segundo mandato presidencial em março de 1918 foi infectado e o vice, Delfim Moreira, que assumiu interinamente em 15 de novembro, acabou assinando o decreto 3603, de 11 de dezembro de 1918. Por esse decreto, foram declarados promovidos ao ano ou série imediatamente superior àquele em que estivessem matriculados todos os alunos das escolas superiores ou faculdades oficiais, do Colégio Pedro II e escolas militares, bem como dos estabelecimentos de ensino equiparados ou sujeitos à fiscalização.

O parágrafo 4 do decreto, dispensou, também, dos exames vestibulares o aluno que tivesse terminado o curso preparatório até 31 de março de 1919. Na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, na época uma faculdade nacional, os ingressantes de 1919 carregaram o estigma de sobreviventes da catástrofe: foram beneficiados por esse decreto que os isentou do vestibular, quase um prêmio pela sobrevivência, mas enfrentaram o descontentamento de veteranos e do corpo docente que via no ingresso sem vestibular um estelionato e no decreto, uma calamidade a somar à da gripe.

100 anos de Yayá no Bixiga

Sebastiana de Mello Freire, a Dona Yayá, foi morar na casa da Rua Major Diogo, em início de agosto de 1920, por recomendação médica e permaneceu vivendo ali por 41 anos, até a sua morte em 1961. Para lembrar os 100 anos da chegada de Yayá ao Bexiga, o setor educativo do Centro de Preservação Cultural (CPC–USP) preparou uma série de textos que abordam esse momento da vida de Yayá e o contexto histórico de São Paulo e do país. Acompanhe!